Reforma ou Abolição?

Escravatura

Felizmente, o tempo da escravatura humana institucionalizada já lá vai. Mas como seria se tivesses vivido nessa época? Farias a tua vida de forma indiferente à exploração dos escravos? Defenderias que os escravos deviam ser melhor tratados (posição reformista)? Ou defenderias o fim completo da escravatura (posição abolicionista)?

Naquela altura, muitas “pessoas de bem” defendiam que os escravos deviam ser melhor tratados e, claro, continuar a ser escravos. Uma campanha popular que os reformistas conseguiram levar a bom termo foi acabar com os açoitamentos dos escravos em público, o que era considerado um “espectáculo” bárbaro que embrutecia os corações de quem a ele assistia. Mas esta campanha nada fez para alterar o estatuto de propriedade dos escravos — os senhores que quisessem castigar os escravos poderiam fazê-lo com a mesma eficácia na privacidade dos seus terrenos. Resultado: os brancos podiam continuar a beneficiar da prosperidade resultante do trabalho escravo, e o sofrimento dos escravos ocorria longe da vista para não escandalizar ninguém.

Por seu turno, os abolicionistas defendiam que os escravos deveriam ser livres e ser senhores dos seus próprios destinos. Estes homens e mulheres abolicionistas eram apelidados de lunáticos pelo resto da sociedade: a ser como os abolicionistas pretendiam, seria o colapso da economia e o fim do modo de vida a que os brancos estavam habituados... Mas, afinal, a escravatura foi mesmo abolida graças ao esforço e coragem dos primeiros abolicionistas e, imagina, o mundo não acabou. Piscadela

Nenhum de nós pode saber exactamente como teria agido se tivesse vivido no tempo em que a escravatura humana era aceite pela sociedade. Mas, aqui e agora, temos o poder de escolher como queremos agir em relação à exploração institucionalizada dos outros animais na nossa sociedade actual.

Podemos comparar a campanha pelo fim dos açoitamentos públicos de escravos com campanhas que as organizações reformistas de defesa dos animais promovem hoje em dia. Na verdade, há mais de dois séculos que organizações de bem-estar animal promovem campanhas com vista à exploração “mais humana” dos outros animais ou contra determinadas práticas consideradas mais chocantes (touradas, circos com animais, indústria de pêlo de animais, galinhas enjauladas, foie gras, etc.). O problema é que estas campanhas não atacam a raiz do problema e não colocam em causa o paradigma de exploração animal. Pelo contrário, a maioria destas campanhas reforça a noção de que não há problema nenhum em explorar e matar os outros animais, desde que o façamos de forma menos “cruel”. E, enquanto não se questiona a exploração em si mesma (apenas a forma como esta é feita), a indústria de exploração animal esfrega as mãos de contente e continua a aumentar exponencialmente o número de animais que reproduz, explora e depois mata a cada ano...

A exploração animal assenta na noção de que os outros animais são uma coisa que pertence aos seus donos e que os donos os podem explorar em proveito próprio da forma que entenderem (tal e qual como na escravatura humana). A única forma de combater este paradigma de subjugação e violentação dos outros animais é deixar de os encarar como recursos que podem ser usados para os fins dos humanos. Os outros animais não existem para nos servir, de todo.

Se somos contra a escravatura humana, não devemos simplesmente fazer campanha contra os açoitamentos em público dos escravos, pois estamos implicitamente a admitir e a legitimar a escravatura humana. Do mesmo modo, se achamos que os outros animais não são coisas que podemos criar, reproduzir, explorar e matar a nosso bel-prazer, devemos dizer clara e inequivocamente que respeitar os animais implica rejeitar todas as formas de violência a que eles são sujeitos, seja na praça de touros, no laboratório, na quinta de pecuária ou no matadouro.

Defender a abolição da exploração animal e adoptar o veg‎anismo é o mínimo que devemos aos outros animais. Sorriso

Publicado terça-feira, 24 de Abril de 2012

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