Natalie Portman: Um Caso Sintomático

É sempre com pena que vemos alguém abandonar o veganismo, como aconteceu recentemente com a Natalie Portman. É importante compreender que, na maioria das vezes, esta desistência do veganismo é resultado de uma incompreensão sobre o que significa respeitar os direitos dos outros animais. Situação que não é de estranhar, considerando que a esmagadora maioria das organizações de defesa dos animais transmite uma mensagem incoerente, pois admite a perpetuação da exploração animal, ao invés de defender a abolição da mesma.

Natalie Portman
Natalie Portman
(foto de John Steven Fernandez no Flickr)

Em 2009, a Natalie afirmava: «era vegetariana há 20 anos, mas depois de ler o livro “Comer Animais” (“Eating Animals”) de Jonathan Safran Foer transformei-me numa activista vegana». Em 2011, as coisas já são muito diferentes no mundo da Natalie. «Depois de engravidar, voltei ao vegetarianismo.» Alguns poderão perguntar: mas não é possível fazer praticamente todo o tipo de pratos, petiscos, sobremesas e doces apenas com ingredientes veganos? Claro que é, mas é mais cómodo (até para celebridades multimilionárias) comer o mesmo que a maioria come. A Natalie explica: «se não comeres ovos, não podes comer bolos de pastelarias convencionais, o que se pode tornar num problema, se isso for tudo o que te apetece comer». Entre não compactuar com a exploração animal e a conveniência de poder comer bolos de qualquer pastelaria, já sabemos qual foi a escolha da Natalie.

E qual é o problema primordial aqui? O problema é a falta de um fundamento sólido e coerente para o veganismo, o que não é de admirar, pois a motivação apresentada foi a leitura do livro “Comer Animais”. Trata-se certamente de um livro com uma bela prosa, mas que nada tem a ver com direitos dos animais ou veganismo. O próprio autor, Jonathan Foer, não é vegano, nem sequer tem uma dieta vegana. O livro faz uma excelente exposição das práticas de exploração animal mais abusivas — as quais não deixam quase ninguém indiferente — mas, em última análise, é apenas mais um livro a defender que podemos continuar a explorar os animais, desde que o façamos de forma “compassiva”. É mais um a defender o bem-estar animal, ou seja, a redução do sofrimento animal e a perpetuação da exploração animal, ao invés de defender os direitos dos animais, ou seja, a abolição da exploração animal.

Defender os direitos dos animais é defender a abolição da exploração, e não procurar arranjar formas de perpetuar a exploração com a desculpa de que se está a tentar diminuir o sofrimento. Contudo, o pensamento dominante — defendido em livros como “Libertação Animal” de Peter Singer e, recentemente, em “Comer Animais” de Jonathan Foer; defendido pelas grandes organizações como a PeTA; e aceite pela maioria dos defensores dos animais — é que o veganismo é apenas um meio para diminuir o sofrimento animal. Assim, é claro que muitos veganos chegam a um ponto na sua vida em que diminuir o sofrimento animal não é motivação suficiente e abandonam o veganismo.

Galo

O veganismo não é um meio para diminuir o sofrimento animal. O veganismo é a aplicação prática na nossa vida do princípio de rejeição da exploração animal. Dizer que o veganismo é apenas um meio para diminuir o sofrimento animal é o mesmo que dizer que rejeitar a violação é apenas um meio para diminuir o sofrimento das vítimas — o que implicaria aceitar a violação, desde que fosse feita minimizando o sofrimento da vítima. Ora, nenhuma pessoa de bom senso concordaria com isso no caso humano, mas, quando se trata de outros animais, é-nos conveniente desculpar a exploração, desde que esta seja feita a coberto de alguma preocupação com a minimização do sofrimento dos animais por nós escravizados.

Toda a exploração animal representa um mal em si mesmo, pois implica tratar os animais como recursos descartáveis que apenas existem para satisfazerem os nossos caprichos. A resposta à exploração animal não é procurar formas de diminuir o sofrimento dos animais explorados, é rejeitar por completo a exploração. A pergunta para a qual deves procurar resposta não é “como é que se pode retirar a maior quantidade possível de leite a esta vaca de forma a causar-lhe o mínimo sofrimento?”, mas sim “que justiça há em trazer esta vaca ao mundo, engravidá-la repetidamente para que tenha leite, retirar-lhe os filhos logo que nasçam e abatê-la ainda jovem, apenas para satisfazer o nosso paladar?”.

É importante termos o nosso veganismo bem assente em princípios éticos e não numa noção incoerente de diminuição do sofrimento, como se respeitar os animais fosse uma questão quantitativa, um qualquer somatório de medidas avulsas. Tal como acontece com os direitos humanos, ou se respeita os direitos dos animais ou não se respeita, não há posições intermédias. Ninguém diz: “era bom acabar com as violações de mulheres, mas, como é completamente irrealista pedir isso, devemos começar por pedir que os violadores sejam compassivos durante a violação”. Ora, então porque dizemos coisas como “se não te queres dar ao trabalho de adoptar o veganismo, já era bom se deixasses de comer carne”?

O veganismo é um princípio básico de justiça, e a justiça não se aplica aos retalhos nem se suspende só porque nos apetece saborear um produto de origem animal. Rejeita toda a violência, abraça o veganismo — para toda a vida! Sorriso

Publicado terça-feira, 12 de Abril de 2011

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